quarta-feira, 3 de maio de 2017

Estilista e grupo de artesãs criam acessórios e peças de decoração com resíduos de jeans


Doze milhões de metros de ourelas de jeans descartados por mês pelo polo têxtil da região do agreste pernambucano, integrado por 18 municípios. Um grupo de artesãs disposto a produzir alguma coisa com o material, que vai parar nos lixões ou é incinerado em fornos e lavanderias. Um estilista, que aposta na sustentabilidade e cria coleção de acessórios e peças de decoração para solucionar a questão socioambiental da região. Isso está ocorrendo, desde o ano passado em Alto do Moura, localidade a 7 km do centro de Caruaru, famosa por ser o maior centro de arte em barro das Américas, fundada pelo Mestre Vitalino.

O estilista Melk Zda, de Recife, é protagonista dessa iniciativa junto com o grupo de 16 artesãs da Associação de Artesãos em Barro e Moradores de Alto do Moura (Abmam), que se autodenominou Mulheres de Argila. Almofadas, tapetes, luminárias, jogos de cama e mesa, entre outras peças, compõem a primeira coleção chamada Sá Valdivina, em homenagem à bonequeira, que também fazia potes de barro e teria 117 anos, se fosse viva. A matéria-prima dos produtos são os resíduos de jeans do polo têxtil pernambucano. A próxima coleção vai homenagear outra artesã de Alto do Moura: Dona Celestina, que ainda  produz brinquedos de barro. Essas ações pertencem ao Projeto de Artesanato do Agreste do Sebrae em Pernambuco.

“Trabalhar com sustentabilidade é um trabalho abençoado. Saber que estamos contribuindo com o meio ambiente e outras mulheres faz a gente se engrandecer como ser humano”, afirma Josy Santos, presidente do grupo Mulheres de Argila.

“É maravilhoso pegar um produto já existente e fazer outro, a partir dele. A coleção teve muito boa aceitação”, comemora Melk Zda. Ele também desenvolveu o tear para tecer as tramas feitas de ourelas de jeans, simples e feito de isopor.  O estilista informa que, no momento, as artesãs estão preparando a segunda fase da coleção Sá Valdivina, constituída por bolsas, mochilas e carteiras. As peças são comercializadas no show room da Abmam e em feiras de negócios, das quais as Mulheres de Argila participam com apoio do Sebrae PE.

“A moda tem que solucionar seus resíduos”, defende o estilista. “Para cada metro de tecido para se fazer uma peça jeans, sobram dois metros de ourela, que viram lixo no polo têxtil”, resume ele. Quando recebeu o convite para participar do desafio, Melk Zda confessa que estranhou, pois a tradição de Alto do Moura são as peças em barro. “Mas  as artesãs queriam outra matéria-prima para desenvolver novos produtos. Os resíduos de jeans não eram aproveitados e elas também queriam resolver o problema local”, diz ele.

“O que estamos fazendo pode ser modelo para o mundo. Temos de diminuir o desperdício. A Lei de Lavoisier nunca foi tão certa: nada se perde, tudo se transforma”, diz Josy.  “O projeto de artesanato mexe com a autoestima de Alto do Moura. A coleção Sá Valdivina conquistou o coração das pessoas desse lugar”, conta Maria Marisete da Silva, gestora do projeto de artesanato do Sebrae em Caruaru.

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